Ir para o conteúdo principal
OLDA

A abóbada

Sobre A abóbada, de Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo

A abóbada

Ficha técnica

Título
A abóbada
Autor
Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo
Ano
1842
Deficiência representada
  • Deficiência visual (cegueira e baixa visão)

Resenha

"Porque o que distingue o homem do bruto é o pensamento que voa além do que os olhos veem e os ouvidos escutam." (A Abóbada)

Trecho em destaque

Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo (Lisboa, Portugal, 1810 – Santarém, Portugal, 1877) foi um dos mais importantes escritores e historiadores do Romantismo português. Considerado o fundador do romance histórico em Portugal, Herculano é amplamente reconhecido por seu papel na revitalização da memória histórica nacional, em um período marcado pelo ressurgimento do interesse nas raízes culturais lusitanas. Além de escritor, foi jornalista, político e poeta, tendo grande influência na consolidação de uma identidade cultural portuguesa. Seu trabalho é marcado por uma forte defesa da liberdade e do progresso, valores que permeiam tanto sua obra ficcional quanto seus estudos históricos, refletindo um profundo compromisso com a justiça social e a construção de uma nação moderna. Publicado originalmente em 1842, A Abóbada é uma narrativa histórica ambientada no século XIV, durante a construção do Mosteiro da Batalha, um dos monumentos mais emblemáticos de Portugal. A narrativa acompanha Mestre Afonso Domingues, um arquiteto talentoso e visionário, que enfrenta a desconfiança de seus contemporâneos e as pressões da corte ao projetar a grandiosa abóbada do mosteiro. A narrativa é carregada de simbolismo, apresentando o esforço humano como uma metáfora para a persistência e o conflito entre a capacidade de criação e as condições impostas pelo corpo e pelo tempo. O cenário medieval e os conflitos entre tradição e inovação técnica oferecem uma rica reflexão sobre a perseverança e o trabalho criativo, temas que ecoam a própria luta de Portugal por independência e afirmação cultural. O tom do romance é profundamente dramático, explorando o sacrifício pessoal em nome do bem maior, ao mesmo tempo em que celebra a capacidade humana de criar e projetar, mesmo diante das transformações vivenciadas pelo personagem. Embora a deficiência não seja apresentada como tema explícito da narrativa, o envelhecimento e a perda progressiva da visão de Mestre Afonso Domingues desempenham um papel importante na construção do personagem e no desenvolvimento do conflito. Sua cegueira é associada à experiência do envelhecimento e às mudanças em suas possibilidades de atuação, tornando-se um elemento dramático da narrativa. Herculano, ao retratar essa condição, a relaciona à trajetória do arquiteto e à sua permanência como sujeito criador, construindo uma oposição entre a perda da visão e sua capacidade de imaginar e construir. Essa representação pode ser analisada criticamente porque aproxima a deficiência de uma ideia de declínio corporal, ao mesmo tempo em que atribui ao personagem uma capacidade excepcional de criação que parece compensar a perda sensorial. Esta abordagem pode ser interpretada como uma reflexão sobre o valor da experiência e da sabedoria acumulada, mas também permite questionar a associação entre deficiência, excepcionalidade e capacidade de superação. Herculano utiliza a figura do arquiteto como representação de um sujeito cuja experiência e capacidade criativa permanecem valorizadas mesmo diante das transformações corporais. Essa construção, entretanto, pode ser analisada pelo viés estereotipado do supercrip, isto é, uma representação de personagens com deficiência que são apresentados como excepcionais justamente por ultrapassarem aquilo que é socialmente associado à deficiência, reforçando expectativas irreais e deslocando a atenção das barreiras sociais para a capacidade individual de enfrentamento (Barnes, 1992). Nesse sentido, a narrativa apresenta uma representação ambivalente da deficiência. Por um lado, a cegueira de Mestre Afonso Domingues não elimina sua posição como arquiteto nem sua capacidade de criação; por outro, sua trajetória é construída a partir de uma lógica de excepcionalidade, na qual a permanência de sua capacidade criativa diante da perda da visão contribui para a construção de uma figura heroica. A análise anticapacitista permite, portanto, observar não apenas a presença da deficiência na narrativa, mas também os valores atribuídos ao corpo, à produtividade, à idade e à capacidade de criação. Por: Mirian de Oliveira Cardoso Referência BARNES, Colin. Disabling Imagery and the Media. Halifax: Ryburn Publishing, 1992. HERCULANO, Alexandre. A abóbada. [S. l.: s. n.], 1951.

Comentários

Os comentários chegam em breve.

Disponível em breve