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A colina das três cruzes de Bragança Coroada

Sobre A colina das três cruzes de Bragança Coroada, de Emilio K. Yoshinari

A colina das três cruzes de Bragança Coroada

Ficha técnica

Título
A colina das três cruzes de Bragança Coroada
Autor
Emilio K. Yoshinari
Ano
2022

Resenha

“Grandes gargalhadas e vaias surgiram entre os cidadãos aglomerados. Alguém gritou: — Japa Louca!” ( A colina das três cruzes de Bragança Coroada)

Trecho em destaque

Emilio K. Yoshinari é um escritor que nasceu na Manchúria, região localizada no nordeste da China, passou sua infância em diferentes cidades japonesas, entre elas Hiroshima, Osaka e Kyoto. Após imigrar para o Brasil, ele trabalhou em diferentes regiões do país, atualmente é aposentado e reside no litoral paulista. Em suas obras explora elementos da cultura japonesa, das relações sociais e dos conflitos humanos. Autor de romances que combinam mistério, investigação e crítica social, produziu em A Colina das Três Cruzes de Bragança Coroada uma narrativa que articula suspense policial e reflexão sobre preconceito, sofrimento psíquico e exclusão social. A Colina das Três Cruzes de Bragança Coroada é um romance policial situado no interior de Santa Catarina, mais especificamente na cidade fictícia de Bragança Coroada e em sua vizinha Colônia Japonesa Esperança. A narrativa tem início com o assassinato de um casal japonês na véspera da Festa de São João, fato que mobiliza a comunidade e dá início à investigação conduzida pelo Delegado Carlos. Ao longo da obra, o mistério policial se entrelaça com conflitos culturais, tensões raciais e dramas familiares, revelando diferentes formas de preconceito presentes naquele contexto social. Entre os personagens está Lucas Okamoto, um menino de seis anos com síndrome de Down. A trajetória de Lucas ganha destaque quando sofre um grave acidente provocado por um fio de pipa com cerol, deixando seu estado de saúde crítico. O episódio mobiliza a comunidade e evidencia a vulnerabilidade da criança, mas também fortalece os laços de solidariedade entre os moradores. No entanto, ao final da narrativa Lucas demonstra desenvolvimento e autonomia, rompendo parcialmente com a imagem de fragilidade construída ao longo da obra. Outra personagem que tem papel significativo na obra é Momoe Sato. Conhecida pelos moradores como “Japa Louca”, ela representa discussões sobre sofrimento psíquico e estigmatização social. Momoe é apresentada como uma mulher idosa que apresenta sintomas de distúrbios mentais, entretanto, sua condição está relacionada a experiências traumáticas acumuladas ao longo de sua vida. Principalmente após perder seu filho e nora em um acidente que marcou profundamente sua trajetória e contribuiu para o agravamento de seu sofrimento emocional. Simultaneamente, ela enfrenta sérios problemas de saúde física, porque, após retirar um tumor do intestino grosso, recebeu o diagnóstico de um câncer de pâncreas em estágio avançado, comprometendo ainda mais seu estado emocional e a estabilidade financeira da sua família. Apesar da imagem construída pela comunidade, a obra retrata Momoe como uma mulher inteligente, ativa e fundamental para o funcionamento da família, realizando as negociações da produção agrícola. Os moradores de Bragança Coroada enxergavam apenas a figura da “louca”, ignorando sua história, sua dor e suas competências. Isso nos traz uma reflexão importante sobre os preconceitos dirigidos às pessoas que vivenciam transtornos mentais ou sofrimento psíquico, que são reduzidas a estereótipos que desconsideram sua humanidade. No desfecho da obra, o leitor descobre que o caso investigado pelo Delegado Carlos tratava-se, de uma tentativa de homicídio seguida de suicídio que foram planejados pela própria Momoe. Ao perceber o agravamento de sua doença e o impacto financeiro dos tratamentos, ela passa a acreditar que sua morte seria uma forma de aliviar o sofrimento daqueles que ela amava. Sendo afirmado na obra que “o estado psicológico anormal e o juízo de valor debilitado com o qual Momoe se encontrava naquele momento induziram-na decisivamente a tomar aquela atitude irracional e autodestrutiva” (Yoshinari, 2020). Essas decisões são apresentadas pelo resultado de uma trajetória marcada por perdas, doença, isolamento e sofrimento da personagem. A Colina das Três Cruzes de Bragança Coroada utiliza a deficiência e os transtornos mentais como elementos centrais para a construção de seus personagens e para a crítica social presente na obra. Enquanto Lucas é alvo de uma caridade excessiva que muitas vezes restringe sua identidade, Momoe sofre os efeitos do estigma e da exclusão social. Ambos os personagens revelam diferentes formas de capacitismo e demonstram como a sociedade pode dificultar o reconhecimento das capacidades e da dignidade daqueles que são considerados diferentes. O romance merece reconhecimento por apresentar uma reflexão profunda sobre preconceito, sofrimento humano e convivência social. Ao acompanhar os acontecimentos na comunidade de Bragança Coroada e na Colônia Japonesa Esperança, o leitor é levado a questionar os julgamentos construídos pela comunidade a refletir sobre a maneira como a sociedade trata pessoas com deficiência, doenças graves ou transtornos mentais. A obra evidencia que, muitas vezes, a exclusão não decorre da condição do indivíduo, mas da incapacidade social de compreender e respeitar a diversidade humana. Trata-se de uma obra relevante para a reflexão sobre deficiência, saúde mental e preconceito, evidenciando como estigmas e rótulos podem influenciar a forma como determinadas pessoas são percebidas e tratadas pela sociedade. Ao combinar suspense policial, crítica social e sensibilidade humana, Emilio K. Yoshinari constrói uma narrativa que convida o leitor a olhar para além das aparências, reconhecendo a complexidade das experiências humanas e a necessidade de uma convivência baseada no respeito e na empatia. Recomenda-se sua leitura, especialmente pela forma como aborda personagens frequentemente marginalizados, provocando reflexões sobre capacitismo, sofrimento psíquico, exclusão social e os desafios da convivência com a diversidade humana. Por: Fernanda Mattos de Andrade YOSHINARI, Emilio K. A Colina das Três Cruzes de Bragança Coroada. São Paulo: Labrador, 2020.

Tags

  • romance policial
  • imigração japonesa
  • deficiência
  • saúde mental
  • exclusão social.

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