A condessa cega e a máquina de escrever
Sobre A condessa cega e a máquina de escrever, de Carey Wallace
Ficha técnica
- Título
- A condessa cega e a máquina de escrever
- Autor
- Carey Wallace
- Ano
- 2011
- Deficiência representada
- Deficiência visual (cegueira e baixa visão)
Resenha
“Carolina moveu a caneta para colocá-la de volta no suporte do tinteiro, mas ele estava tampado. Em vez disso, ela colocou a ponta na borda do tinteiro, logo acima da poça funda de tinta, o cabo da caneta projetando-se para fora. Agora, podia apenas imaginar onde a gota caíra. Ela fez os dedos de uma das mãos caminharem como uma aranha por cima da escrivaninha até seu polegar encontrar uma pequena poça. Com a outra mão, ela puxou um lenço de seu corpete e limpou a gota. A seguir, pegou a caneta outra vez, mas seu movimento foi impreciso. A caneta caiu dentro do tinteiro, submergindo toda a ponta na tinta. Carolina tirou-a.” (A condessa e a máquina de escrever)
Carey Wallace é uma escritora norte-americana cuja produção literária se caracteriza pela combinação entre ficção histórica, imaginação e elementos de fantasia. Suas obras exploram temas como invenção, memória, relações humanas e o diálogo entre realidade e fantasia, frequentemente inspiradas em fatos históricos pouco conhecidos. A autora constrói narrativas marcadas por uma escrita que valoriza a subjetividade e a dimensão emocional, nas quais personagens femininas ganham destaque e profundidade. Em seus textos, Wallace revisita o passado não de forma documental, mas como espaço de criação literária, utilizando elementos históricos como ponto de partida para desenvolver histórias que valorizam a subjetividade, o afeto e a criatividade humana. Além da carreira literária, Wallace também fundou o retiro artístico Hillbilly, The Underground, localizado na zona rural de Michigan, voltado à produção e ao intercâmbio artístico. Atualmente, vive no Brooklyn, em Nova York, onde segue desenvolvendo projetos ligados à escrita e à arte. O romance A Condessa Cega e a Máquina de Escrever, de Carey Wallace, é inspirado na história real da mulher que motivou a criação da primeira máquina de escrever. A narrativa acompanha a vida de Carolina Fantoni, uma jovem condessa italiana que começa a perder a visão ainda muito nova. Apesar de perceber claramente que está ficando cega, sua família e seu noivo não acreditam em seus relatos, fazendo com que ela enfrente a perda progressiva da visão em meio à solidão e à falta de reconhecimento de sua experiência. Enquanto sua visão desaparece aos poucos, Carolina descobre que, em seus sonhos, consegue enxergar novamente, voar e explorar lugares impossíveis. Essa experiência torna os sonhos um espaço de liberdade e imaginação diante das transformações provocadas pela perda da visão. Ao mesmo tempo, ela desenvolve uma forte amizade com Turri, um inventor curioso e sensível, que é uma das poucas pessoas que reconhecem sua experiência e acreditam em suas palavras. É ele quem cria e presenteia Carolina com uma máquina de escrever, permitindo que ela volte a se comunicar, expresse seus sentimentos e encontre uma nova forma de autonomia. A partir dessa convivência nasce uma história de amor construída com respeito, cumplicidade e admiração mútua. Além do romance, a obra aborda temas como deficiência, preconceito, comunicação, criatividade e autonomia. A autora demonstra que as dificuldades enfrentadas por Carolina não estão relacionadas apenas à perda da visão, mas também à maneira como as pessoas ao seu redor desacreditam de sua experiência e deixam de reconhecer suas necessidades. Nesse sentido, a representação da cegueira na obra permite observar a diferença entre a condição visual de Carolina e as barreiras produzidas pelas relações sociais. Antes mesmo de a perda da visão se completar, a personagem já enfrenta uma forma de exclusão: seus relatos sobre o próprio corpo não são reconhecidos por aqueles que convivem com ela. A narrativa, portanto, não apresenta apenas a cegueira como uma transformação individual, mas também evidencia como o descrédito e a falta de escuta podem produzir isolamento. A máquina de escrever assume, nesse contexto, uma função importante na trajetória da personagem. Mais do que representar uma solução para a deficiência, o objeto amplia suas possibilidades de comunicação e expressão, permitindo que Carolina produza e registre aquilo que deseja comunicar. A invenção, assim, pode ser compreendida como um recurso que favorece sua autonomia, deslocando o foco daquilo que ela deixou de enxergar para aquilo que continua sendo capaz de criar e expressar. Por fim, A Condessa Cega e a Máquina de Escrever constrói uma narrativa em que a experiência da cegueira se articula às relações familiares, afetivas e às possibilidades de comunicação. A obra permite refletir sobre o modo como pessoas com deficiência podem ter sua própria experiência desacreditada e sobre a importância de recursos que ampliem sua autonomia. Embora a narrativa também mobilize elementos de romance e de superação, uma leitura pela perspectiva anticapacitista permite deslocar o foco da ideia de “vencer” a deficiência para as barreiras que atravessam a trajetória de Carolina e para as possibilidades de participação, criação e expressão que se abrem quando essas barreiras são reduzidas. Por: Enayle Matos WALLACE, Carey. A Condessa Cega e a Máquina de Escrever. Rio de Janeiro: Rocco, 2012.
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