A dança da morte
Sobre A dança da morte, de Stephen King
Ficha técnica
- Título
- A dança da morte
- Autor
- Stephen King
- Ano
- 1978
- Deficiências representadas
- Deficiência visual (cegueira e baixa visão)
- Deficiência auditiva / Surdez
- Deficiência intelectual
Resenha
“Se vamos prosseguir com este plano, terminaremos com um velho e um debilóide. Desculpem pela palavra, também gosto dele, mas isto é o que ele é. [...] Tom Cullen tinha um parafuso a menos na cabeça. Nick sabia que uma das razões porque ele sentia uma forte empatia por Tom resultava de ele próprio ter sido considerado retardado mental” (A dança da morte)
Stephen King (Maine, 1947) é um famoso escritor estadunidense, amplamente reconhecido por suas obras no gênero de terror e suspense. Com um bacharelado em Inglês e uma carreira que inclui também a docência, King se consolidou como um dos mestres do terror moderno, sendo considerado uma das figuras mais influentes da literatura contemporânea americana. Atualmente, a maioria de suas obras receberam adaptações fílmicas, e ele é considerado um dos mestres do terror. Muitas de suas obras, como It e Carrie, foram adaptadas para o cinema, ampliando ainda mais sua legião de fãs. Suas histórias, geralmente carregadas de tensão psicológica e elementos sobrenaturais, são aclamadas pela capacidade de explorar os medos mais profundos da humanidade. A dança da morte, publicado originalmente em 1978, é uma obra de ficção científica e horror apocalíptico que se destaca por seu retrato de uma pandemia devastadora. Em 1990, o autor publicou uma versão expandida, e em 1994, o romance foi adaptado para o cinema. A história gira em torno de uma supergripe que extermina noventa e nove por cento da população mundial, com os sobreviventes lutando para reconstruir suas vidas em um mundo que foi subitamente desolado. A narrativa combina elementos de ficção científica com uma reflexão sobre o bem e o mal, com personagens marcados por destinos e experiências compartilhadas, como a busca por uma misteriosa senhora que representa o bem e um homem sem rosto, que simboliza o mal. Dentre eles, há dois personagens com deficiência: Nick Andros, um personagem surdo, e Tom Cullen, personagem com deficiência intelectual. A deficiência de Nick e Tom não define suas identidades, mas oferece um contexto único de resistência e resiliência em um mundo devastado. Nick, embora surdo, possui uma perspicácia emocional e uma liderança silenciosa, enquanto Tom, mesmo com limitações cognitivas, se destaca por sua lealdade e coragem, tornando-se uma figura importante na construção do grupo de sobreviventes.A obra apresenta personagens cativantes que conseguem despertar sentimentos concernentes ao contexto que o autor busca construir. Ambos personagens possuem parte significante no desenrolar da trama, de modo a torná-los caros ao leitor.. Esses dois personagens têm papéis cruciais na trama, destacando-se pela humanidade e coragem, em vez de estereótipos de incapacidade. Contudo, a obra ainda reflete os preconceitos e limitações de seu tempo, como no caso de Tom, que é chamado de “retardado” pelo próprio narrador. Esse tratamento, embora típico da época em que a obra foi escrita, ressoa negativamente quando analisado sob uma perspectiva contemporânea de respeito à diversidade e à inclusão. O uso desses termos reforça um estigma que, mesmo em uma obra moderna, ainda precisa ser abordado com mais cuidado. Apesar disso, a inclusão de personagens com deficiência amplia a gama de representações de humanidade no livro, desafiando a ideia de que heróis ou protagonistas devem ser sempre fisicamente perfeitos ou intelectualmente superiores. Por fim, temos também a personagem Mother Abagail, uma senhora com deficiência visual. Na construção da personagem, percebe-se uma simbologia da cegueira associada à espiritualidade, no sentido de que ela não enxerga com os olhos do corpo, mas vê com os olhos espirituais. Nesse contexto, a velhice é retratada simultaneamente como limitação física e elevação moral, uma vez que a personagem passa a ocupar uma posição central na comunidade, sendo constantemente procurada pelos demais personagens para acessar aquilo que ela “vê”. A narrativa, por sua vez, ao associar a deficiência a um “dom espiritual”, promove uma representação baseada na compensação simbólica da deficiência, isto é, atribui à personagem um poder especial que supostamente equilibraria sua limitação. Dessa forma, a personagem é construída a partir de uma lógica compensatória, na qual perpassa o discurso de que a deficiência somente se torna aceitável quando acompanhada de uma habilidade extraordinária. Tal estratégia narrativa mantém a personagem inscrita em um estereótipo capacitista, sem desenvolvê-la como um sujeito complexo. A dança da morte é, portanto, um romance de ficção científica apocalíptica que oferece uma análise profunda das relações humanas em tempos de calamidade. Embora a obra contenha elementos problemáticos, como a linguagem preconceituosa usada em relação à deficiência, da romantização e infantilização desta, e como os personagens são tratados no meio social, ela também desempenha um papel importante ao trazer personagens com deficiência para o centro da narrativa. Ao mesmo tempo, o romance permite observar como a experiência da doença desestabiliza a ilusão de controle e autonomia que sustenta o corpo normativo. A epidemia atinge indiscriminadamente diferentes sujeitos, revelando que a normatividade corporal é frágil e contingente. Nesse sentido, A Dança da Morte expõe a violência estrutural de uma sociedade que só reconhece valor na força e na funcionalidade, ao mesmo tempo em que evidencia o medo social projetado sobre corpos fragilizados. Por: Mirian de Oliveira Cardoso KING, Stephen. A dança da morte. São Paulo: Suma, 2013.
Comentários
Os comentários chegam em breve.