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A pedra da lua

Sobre A pedra da lua, de Wilkie Collins

A pedra da lua

Ficha técnica

Título
A pedra da lua
Autor
Wilkie Collins
Ano
1868
Deficiência representada
  • Deficiência física

Resenha

“Eu desconhecia a razão que afastava a garota dos outros criados. Certamente não havia nela beleza capaz de causar inveja das outras: era a mulher menos bonita da casa, com a mazela adicional de ter um ombro mais alto que o outro. [...] Nas horas vagas, ela lia ou trabalhava, enquanto os outros faziam mexerico [...] Acrescente-se a isso o fato de, feia como era, haver algo que a fazia parecer não uma criada, mas uma dama” (A pedra da lua).

Trecho em destaque

Wilkie Collins (1824-1889, Londres, Inglaterra) foi um escritor e dramaturgo inglês, considerado autor do primeiro romance policial. É um dos principais autores do cenário literário vitoriano, destacando-se com suas principais obras A pedra da lua (1868) e A mulher de branco (1859). Deste último, muitas foram as adaptações fílmicas posteriores acerca do mistério envolvente da narrativa de Collins. Suas produções foram responsáveis pelo sucesso do autor e aprofundam tramas complexas e misteriosas que influenciaram o desenvolvimento do gênero policial. Sua escrita era repleta de crítica social e de elementos do suspense. A obra A pedra da lua, publicado em 1868, traz uma narrativa policial e aventuresca que começa com o desaparecimento da Pedra da Lua - um diamante amaldiçoado que foi roubado de um templo indiano, e, anos depois, foi deixado como herança para uma jovem chamada Rachel Verinder, uma jovem inglesa de família aristocrática. Na noite de seu aniversário, quando ela decide usar a jóia, ela desaparece misteriosamente. A trama, ambientada na Inglaterra do século xix, desenrola-se em torno da investigação desse roubo, envolvendo segredos, suspeitas e dramas familiares. A narrativa é estruturada de forma inovadora, por meio de relatos em primeira pessoa de diferentes personagens, que apresentam suas versões dos fatos a partir da perspectiva de um diário. Esse recurso torna a leitura dinâmica e instiga o leitor a montar o quebra-cabeça da verdade por meio de múltiplos pontos de vista. Entre os personagens, destaca-se Rosanna Spearman, uma jovem empregada doméstica que trabalha na casa da família Verinder. Socialmente, Rosanna carrega os estigmas da marginalização: é pobre, tem um passado de criminalidade — cometia furtos para sobreviver —, passou por um reformatório e possui uma deformidade física no ombro. Além disso, os narradores a descrevem de maneira preconceituosa, chamando-a de “feia” e “infeliz”, reforçando a exclusão social a que está submetida. Assim, a narrativa é construída para estabelecer a distância entre ela e os demais, sendo essa perspectiva reiteradamente reforçada. Na obra, portanto, a deficiência física é vista por meio de um olhar capacitista, como um defeito, sendo associada à feiúra, à tristeza e à inferioridade. Rosanna é contratada não por mérito próprio, mas como objeto de caridade da matriarca, cuja religiosidade justifica a concessão de uma “nova chance” à moça: “O resumo da história era que Rosanna Spearman havia sido uma ladra, e por não ser uma daquelas que roubam Companhias na City, [...] esperava apenas uma chance para se mostrar digna do interesse de qualquer cristã” (Wilkie, 1868, p. 44). Essa perspectiva, embora comum à época, é problematizada pela própria construção da personagem, que não se resume à condição física ou ao passado. Rosanna se revela complexa, inteligente, apaixonada e profundamente humana, desempenhando papel fundamental no suspense que permeia a narrativa. Sua participação ativa na história transforma a imagem inicial de fragilidade em força dramática e simbólica, gerando empatia e provocando reflexões sobre preconceitos sociais. O livro de Wilkie Collins é notável por levantar questões sociais em meio ao suspense, especialmente ao expor a marginalização de indivíduos com deficiência ou com antecedentes desabonadores. Mesmo sendo marginalizada pelo olhar da aristocracia, a personagem Rosanna adquire força simbólica ao incitar o leitor a questionar as avaliações morais. A sua presença desmonta o ideal vitoriano de pureza e beleza, revelando a falsidade de uma sociedade que condena e marginaliza sob a capa da “bondade”. Apesar de A Pedra da Lua abordar com competência tópicos como justiça, culpa e redenção, ainda existem falhas na representação de indivíduos com deficiência. A deficiência física de Rosanna é empregada como uma metáfora para a “desordem moral”, o que pode intensificar estigmas, mesmo que de forma inconsciente. Trata-se de uma construção própria do seu tempo, devido à época em que a narrativa foi produzida. Contudo, a obra pode ser interpretada como um convite à análise crítica desses princípios - particularmente quando se nota a intensidade emocional da personagem e sua resiliência diante do desprezo social. Desse modo, com base em uma perspectiva social da deficiência, podemos entender a representação das PcD a partir da interseccionalidade vivenciada por elas, como gênero, etnia, idade, raça, sexo, religião, status socioeconômico ou outros marcadores, porque essas intersecções “acentua[m] dificuldades quanto à inclusão de pessoas com deficiência na dinâmica social” (Schmidt et al, s.d, n.p). A personagem Spearman vivencia a interseccionalidade de ser uma mulher, pobre e com deficiência que vive entre pessoas brancas, ricas e detentoras do poder. Sob a perspectiva da literatura inclusiva, o romance nos faz ponderar sobre o uso do corpo fora do padrão na ficção para simbolizar desordem, sofrimento ou castigo, o que demanda uma perspectiva crítica do leitor atual. A Pedra da Lua é uma leitura cativante que mescla enigma, drama e crítica social em uma trama repleta de mistério. O enredo possibilita entender a dinâmica da sociedade inglesa do século XIX, além de suscitar discussões pertinentes sobre exclusão, estigmatização e empatia. A sua abordagem de assuntos sensíveis mantém-se pertinente para leitores que buscam não só suspense, mas também questões sociais e humanas. Por: Mirian de Oliveira Cardoso Referência COLLINS, Wilkie. A pedra da lua. Rio de Janeiro: Record, 2001. SCHMIDT, Carlo. MENEZES, Eliana. BERNI, Clenio. Deficiência e interseccionalidade: culturas, políticas e práticas educacionais em debate. [s.i]. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/educacaoespecial/article/view/68899/45485, acesso em 23 fev 2025.

Tags

  • romance
  • romance policial
  • década de 1850
  • Inglaterra
  • personagem com deficiência física.

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