Conto de fadas
Sobre Conto de fadas, de Stephen King
Ficha técnica
- Título
- Conto de fadas
- Autor
- Stephen King
- Ano
- 2022
- Deficiências representadas
- Deficiência física
- Deficiência visual (cegueira e baixa visão)
- Deficiência auditiva / Surdez
Resenha
“Entre o nariz e o queijo, não havia nada além de uma linha branca nodosa, como a cicatriz de uma ferida séria que já tinha se fechado muito tempo antes. Na ponta direita da cicatriz havia uma mancha vermelha do tamanho de uma moedinha que parecia um botão de rosa bem pequeno. A menina dos gansos não tinha boca” (Conto de fadas)
Stephen King (Maine, 1947) é um famoso escritor estadunidense, amplamente reconhecido por suas obras no gênero de terror e suspense. Com um bacharelado em Inglês e uma carreira que inclui também a docência, King se consolidou como um dos mestres do terror moderno, sendo considerado uma das figuras mais influentes da literatura contemporânea americana. Atualmente, a maioria de suas obras receberam adaptações fílmicas, e ele é considerado um dos mestres do terror. Muitas de suas obras, como It e Carrie, foram adaptadas para o cinema, ampliando ainda mais sua legião de fãs. Suas histórias, geralmente carregadas de tensão psicológica e elementos sobrenaturais, são aclamadas pela capacidade de explorar os medos mais profundos da humanidade. Publicado em 2022, o romance Conto de Fadas combina fantasia e horror em uma narrativa de iniciação protagonizada por Charlie Reade, um adolescente que, ao lado de sua cadela Radar, descobre a entrada para um mundo fantástico e sombrio. A partir do quintal de um velho vizinho, Charlie mergulha em um universo dominado por uma entidade maligna que transforma seus habitantes em seres “cinzentos”, afetando suas formas físicas e mentais. A obra, atualmente em processo de adaptação para série pela produtora A24, evoca o imaginário dos contos clássicos com uma atmosfera sombria característica do autor. Dentro do universo corrompido pela presença maligna, diversos personagens apresentam algum tipo de deficiência causada pela “cinzentude”, como é chamado o efeito dessa força sobrenatural. Dora, com rosto deformado e fala incompreensível, oferece conforto a Charlie em momentos de tensão; Leah de Gallien, princesa que perdeu a boca e precisa se mutilar para se alimentar, é símbolo extremo do sofrimento imposto pela entidade; senhor Woody, cego, cumpre papel de guia; Cláudia, surda, auxilia corajosamente nas batalhas; e Peterkin, anão com tendências cruéis, encarna o antagonismo perverso. Essas figuras compõem um retrato diverso, mas majoritariamente atrelado ao sofrimento e à monstruosidade. De modo geral, a deficiência, no romance, se apresenta como uma maldição lançada por um ser maligno. As pessoas com deficiência vivem uma vida miserável e difícil, e precisam lidar com a realidade de que, quando o cinza caía sobre elas, seu destino era a morte. Embora o romance aborde essas questões a partir de um universo fantástico de magia e fantasia, ainda assim, representar deficiências como uma maldição lançada por uma ideia de deus, remonta aos princípios da história da pessoa com deficiência, quando esta era considerada um castigo divino. Entretanto, o romance possui um enredo cativante, com personagens bem delineados, de modo a prender o leitor do início ao fim do romance. Embora o romance se destaque pela imaginação vívida e pela construção detalhada de um universo fantástico, a representação da deficiência como resultado de uma maldição ou punição divina remete a concepções históricas estigmatizantes. A associação entre deficiência e corrupção moral ou espiritual, mesmo que simbolicamente trabalhada em um contexto de fantasia, reforça leituras capacitistas que vinculam limitações físicas ou mentais ao mal, à tragédia ou à desumanização. Isso pode gerar incômodo ao/a leitor/a mais atento/a às questões de representatividade. Por outro lado, King desenvolve personagens que, mesmo afetados pela “maldição”, demonstram coragem, empatia e afetividade, como Dora e Cláudia, o que contrabalança parcialmente os estereótipos apresentados. Ainda assim, o romance não propõe uma superação consciente desses estigmas; ao contrário, muitas deficiências são tratadas como deformações monstruosas ou limites que aproximam os personagens da morte. Dessa forma, Conto de Fadas oferece um enredo cativante e bem escrito, mas peca pela reprodução de arquétipos históricos que associam a deficiência ao castigo, à fraqueza e ao grotesco. Conto de Fadas é uma obra envolvente que reafirma a maestria de Stephen King em construir universos imaginativos e tensos. Contudo, ao representar a deficiência como produto de uma força maligna, a narrativa dialoga com concepções ultrapassadas e problemáticas sobre o corpo e a mente fora da norma. Essa leitura convida à reflexão sobre como até mesmo obras contemporâneas e populares ainda podem reforçar visões capacitistas enraizadas na cultura ocidental. Por: Mirian de Oliveira Cardoso KING, Stephen. Conto de fadas. Rio de Janeiro: Schwarcz s.a, 2022.
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