Mata Doce
Sobre Mata Doce, de Luciany Aparecida
Ficha técnica
- Título
- Mata Doce
- Autor
- Luciany Aparecida
- Ano
- 2023
- Deficiência representada
- Deficiência física
Resenha
“Mané ia carregando suas marcas, uma gaita, um embornal, o caixote do quebra queixo, uma muleta, uma perna que ia até o pé e outra que ia até o joelho. Era um músico afamado e um vendedor de doce adorado pelas crianças e pelas idosas” (Mata Doce).
Luciany Aparecida (Vale do Jequiriçá, Ba, 1982) é professora, doutora em Letras e pesquisadora de temas como imigração, memória e identidades. Autora de contos, poesia e dramaturgia, publicou em 2023 Mata Doce, seu primeiro romance assinado com o próprio nome. Publicado pela Alfaguara, a obra venceu o Prêmio São Paulo de Literatura 2024 na categoria melhor romance e foi finalista do Prêmio Jabuti. Com uma prosa lírica e vigorosa, Luciany constrói um romance épico que une delicadeza e intensidade, entrelaçando passado e presente para narrar a luta e a resistência feminina no sertão baiano. O enredo centra-se na trajetória de Maria Teresa, ou Filinha Mata-Boi, uma jovem criada por suas mães adotivas, Mariinha, uma professora, e Tuninha, uma travesti. Ambientado no vilarejo fictício de Mata Doce, no interior da Bahia, o romance aborda temas como amor, perda, luto, sororidade, religiosidade afro-brasileira e resistência à opressão. A história é marcada por conflitos de terra e tragédias, como o assassinato de Zezito, noivo de Maria Teresa, na véspera do casamento, pelo coronel Gerônimo Amâncio. Essa perda transforma a jovem, que assume o trabalho de matar bois no curral do coronel como forma de resistência e memória. Com uma narrativa que rompe a linearidade e alterna o uso da 3ª e 1ª pessoa narrativa, o romance funde passado, presente e futuro, conectando personagens e eventos por meio de símbolos como o roseiral branco, o vestido de noiva e a careta do boi. A escrita de Luciany explora a força das mulheres negras e quilombolas, criando trajetórias de mulheres marcadas pela ancestralidade, sororidade, empatia e resistência. Também desafia as histórias de amor romântico ao apostar no casal homoafetivo Mariinha e Tuninha, cuja longa relação afetiva e feliz é marcada por cumplicidade e lealdade. A autora utiliza a polifonia com a alternância do foco narrativo e o recurso das cartas para descentralizar o discurso, dando voz às personagens e destacando a importância da escrita e da leitura como formas de preservação da memória. Referências à religiosidade de matriz africana, como os orixás Yemanjá Sabá e Xangô, permeiam a narrativa, conferindo profundidade espiritual e simbólica à obra. Também é simbólico na obra a leitura de Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, pela protagonista Maria Teresa/Filinha Mata-Boi, o que pode significar uma espécie de homenagem ao primeiro romance abolicionista negro e à figura da autora maranhense, que trouxe para a literatura brasileira a memória e a subjetividade negras. Mais do que expor as injustiças históricas, Mata Doce celebra a potência transformadora da ancestralidade e do aquilombamento, destacando histórias de resistência e reinvenção. Nesse contexto, emerge a figura de Mané da Gaita, um cantador mambembe e vendedor de doces ambulante. Apesar de sua deficiência física, Mané percorre as distâncias no sertão baiano, levando a alegria de sua música às celebrações do vilarejo, desde encontros cotidianos entre vizinhos até festas tradicionais e casamentos, simbolizando a resiliência e a importância da arte como elemento de união e identidade comunitária. Sua deficiência não é representada como um obstáculo para sua participação ativa na comunidade, mas sim como uma expressão da resiliência e da importância da arte como um elemento de união e identidade comunitária. A presença de Mané simboliza a força e a beleza que podem surgir mesmo nas condições mais desafiadoras, trazendo um contraste com a resistência e luta das personagens centrais do romance. Em suma, Mata Doce é uma obra que traz à tona a luta e a resistência das mulheres no sertão baiano, abordando questões de identidade, ancestralidade, e resistência social com uma prosa envolvente e simbólica. A escrita de Luciany Aparecida não só conta uma história de dor e superação, mas também celebra a força da coletividade e a importância da memória e da sororidade. A obra é uma leitura essencial para aqueles que buscam compreender a profundidade da cultura e da resistência afro-brasileira, além de explorar a construção literária que permeia a luta social e as relações humanas. Por: Wilma dos Santos Coqueiro APARECIDA, Luciany. Mata Doce. 1. ed. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2023.
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