O quarto fechado
Sobre O quarto fechado, de Lya Luft
Ficha técnica
- Título
- O quarto fechado
- Autor
- Lya Luft
- Ano
- 2008
- Deficiência representada
- Deficiência física
Resenha
“Esperava encontrar uma mulher enobrecida pela enfermidade, mas não era humana a criatura deitada sobre a cama. Um ser imenso, gordíssimo, grande cabeça de ralos cabelos pretos, olhos fixos no teto. Como é que Mamãe, começando a envelhecer, cuidava, em geral sozinha, daquele corpo enorme?” (O quarto fechado).
Lya Luft (Rio Grande do Sul, 1938-2021) foi uma das principais vozes da literatura brasileira, marcada por sua prosa sensível e introspectiva. Tradutora de autores como Virginia Woolf e Thomas Mann, aliou a erudição literária a uma abordagem intimista que explora profundamente os dilemas humanos. Sua obra transita por temas como família, morte, infância, solidão, culpa e amor, refletindo sobre as complexidades das relações e os mistérios da existência. Com mais de 1,2 milhão de exemplares vendidos, Lya Luft conquistou leitores(as) ao transformar o cotidiano em textos universais, como no sucesso Perdas & Ganhos (2003), que obteve ótima recepção de público e teve direitos vendidos para diversos países, permanecendo por 113 semanas no topo das listas dos mais vendidos. Em romances como A asa esquerda do anjo (1981), Reunião de Família (1982) e O Quarto Fechado (1984), Lya Luft abordou dramas humanos e os difíceis relacionamentos amorosos e familiares. Embora não tenha focado nas lutas feministas como muitas autoras dos anos 1980, sua obra expôs com sensibilidade a opressão e os conflitos enfrentados pelas mulheres, revelando traumas e imposições de uma sociedade patriarcal repressora. Em O Quarto Fechado, Lya Luft apresenta uma narrativa densa e poética, centrada nas complexas relações humanas e na impotência diante da morte. Ambientado em um cenário sombrio durante uma única noite, o enredo gira em torno do velório de Camilo, filho de Renata e Martim, um casal separado que se reencontra ao redor do caixão. Por meio de flashbacks, o(a) leitor(a) é conduzido(a) às entranhas de uma família marcada por segredos, culpas e frustrações. Nessa família, marcada por tragédias, destaca-se a figura de Mamãe, madrasta de Martim e mãe de Ellen, que atua como a matriarca tentando manter a ordem das coisas e a harmonia familiar, apesar das muitas feridas emocionais e conflitos latentes que permeiam suas relações. Renata, ex-pianista de sucesso, abandonou sua carreira ao casar-se com Martim, mas nunca encontrou a felicidade no casamento nem conseguiu amar os filhos gêmeos, Camilo e Carolina, como desejava. A união simbiótica dos gêmeos, incompreendida e criticada por Martim, é abruptamente rompida pelo suicídio de Camilo, que sempre fora vítima da incompreensão do pai e da indiferença da mãe. A narrativa explora, também, a dor de Carolina, a gêmea sobrevivente, deixando em aberto seu futuro e recuperação. O enredo trabalha, assim, com as consequências na vida de uma família que vivencia a negligência afetiva. Nesse cenário opressivo do casarão da família, em um “quarto fechado”, vive Ella, irmã de criação de Martim, com quem ele teve uma grande paixão na juventude. Com a proibição da família, especialmente de Mamãe, os dois tentam fugir juntos, mas um acidente deixa Ella paralisada, confinada a uma cama por mais de 30 anos. Vivendo de forma quase vegetativa e isolada, com raras visitas, Ella sofreu fraturas na espinha e na cabeça, tornando-se, ao longo dos anos, uma figura repulsiva e quase monstruosa, cuidada exclusivamente pela mãe. Luft encena a deficiência física de Ella a partir de uma perspectiva simbólica, trabalhando com questões acerca do silenciamento e aprisionamento afetivo a partir de um tom trágico, sem, no entanto, aprofundar sua subjetividade. A condição física da personagem surge enquanto metáfora do peso do passado e das escolhas interrompidas. No corpo paralisado de Ella reverbera a paralisia emocional, o abandono das promessas de amor e o resultado de imposições familiares. A atualidade da obra de Luft reside no fato de abordar temas universais como loucura, culpa, morte, fatalidade e desencontros, alternando delicadeza e brutalidade para refletir sobre as contradições humanas, a fragilidade da existência e a impotência diante tanto da vida como da morte. A presença de uma personagem com deficiência física, embora coadjuvante, instiga uma reflexão crítica sobre como as pessoas com deficiência foram historicamente associadas à decadência, ao confinamento e à dor, sem voz própria. Ainda assim, a narrativa de O Quarto Fechado permanece relevante ao provocar o(a) leitor(a) a pensar sobre os limites do amor, da culpa e daquilo que deixamos trancado em nossos próprios quartos internos. Por: Wilma dos Santos Coqueiro Para saber mais FICHER, Luís Augusto. Lya Luft não narrou luta do feminismo, mas expôs condição da mulher. Folha de S. Paulo. 30 de dezembro de 2021. GUIMARÃES, Elvandir Guedes. A postura das personagens melancólicas Martim, Renata e Camilo do livro O quarto fechado de Lya Luft frente à morte. Ideias: revista do curso de Letras. p. 43-38. KUKUL, Vanessa Moro. O quarto fechado de Lya Luft: uma ilha que emerge à noite: Campinas: Ponte Editores, 2017. LUFT, Lya. O quarto fechado. 4. ed. Rio de Janeiro: Record, 2008. MELO, Cimara Valim. Lya Luft: um quarto fechado para o mundo. Revista Eletrônica do Instituto de Humanidades, 1(2), abri-jun 2008. Disponível em https://publicacoes.unigranrio.edu.br/reihm/article/view/7 , acesso em 15 jan. 2025. Melo, Cimara Valim. Lya Luft: percursos entre intimismo e modernidade. 2005. 142f. Dissertação (Mestrado em Letras). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005.
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