O tigre na sombra
Sobre O tigre na sombra, de Lya Fett Luft
Ficha técnica
- Título
- O tigre na sombra
- Autor
- Lya Fett Luft
- Ano
- 2012
- Deficiência representada
- Deficiência física
Resenha
“Eu lhe dei trabalho desde a hora de nascer, e sempre daria, porque nasci do jeito que sou” (Luft, 2012, p. 15).
Lya Fett Luft (Santa Cruz do Sul, 15 de setembro de 1938 – Porto Alegre, 30 de dezembro de 2021) foi uma escritora e tradutora brasileira. Diplomou-se em Pedagogia e em Letras Anglo-germânicas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e obteve o título de mestra em Linguística, em 1975, pela PUCRS e em Literatura Brasileira, no ano de 1978 pela UFRGS. Trabalhou como tradutora de literaturas em alemão e em inglês, atuou também como professora titular na Faculdade Porto-Alegrense, além de ter sido colunista da revista Veja. Sua escrita é marcada por uma sensibilidade única para as complexidades humanas, tratando de temas universais como a solidão, a identidade e a condição humana. O tigre na sombra foi publicado em 2012 e venceu o Prêmio da Academia Brasileira de Letras em 2013, constituindo-se um livro muito aclamado pela crítica e com milhares de exemplares vendidos. Sua narrativa evidencia temáticas profundas que fazem parte da condição humana, como dramas familiares, relações amorosas e a morte. Nesse romance, há uma narrativa em primeira pessoa, o que contribui para a compreensão da personagem em toda sua complexidade. Dolores, conhecida como Dôda por amigos íntimos, narra em quatro capítulos toda sua trajetória de vida, da infância até a velhice. Quando criança, a protagonista vivencia a insensibilidade e o desprezo de sua mãe por possuir uma deficiência em uma das pernas, o que dificulta seu caminhar e provoca reações preconceituosas de outras pessoas. Para lidar com tudo isso, Dôda cria um mundo à parte, no qual é livre para ser quem deseja, longe das imposições sociais. O romance desmistifica a visão tradicional da deficiência como uma “falta” que deve ser corrigida ou superada, promovendo uma reflexão sobre como as pessoas com deficiência são vistas e tratadas pela sociedade. A concepção da deficiência como falta, doença e necessidade de cura “nos coloca em uma situação dúbia: a mesma modernidade que constrói a vivência da alteridade de forma antagônica e cria esses outros em devir, é a modernidade que opera nos direitos humanos” (Climago, 2010). Ao invés de atuar nessa perspectiva capacitista, Luft aborda essa questão de forma humanizada, evidenciando a capacidade de resiliência e a complexidade dos sentimentos humanos. Ao longo da obra, a deficiência de Dôda não é apenas um traço físico, mas sim uma condição que contribui para a formação de sua identidade, complexificando as questões de pertencimento e aceitação. A obra também reflete sobre questões mais amplas, como o capacitismo, a sexualidade e o corpo feminino com deficiência. O romance não apenas desafia estigmas sociais, mas também traz à tona as limitações impostas pela sociedade, ao mostrar como uma mulher com deficiência lida com suas próprias expectativas e as dos outros. Dôda, ao longo da narrativa, vai construindo sua identidade, passando de uma figura marginalizada para uma mulher que, apesar das adversidades, resgata seu protagonismo e reconcilia-se com sua própria imagem. Em um contexto social em que as mulheres com deficiência muitas vezes enfrentam invisibilidade, a obra de Luft se destaca ao dar voz a uma personagem rica e complexa. Em O tigre na sombra, Luft apresenta uma narrativa envolvente e profunda, que transcende a simples história de superação para refletir sobre a complexidade das relações humanas e sociais, especialmente no que diz respeito à deficiência. Ao explorar a vida de Dôda, a autora provoca uma reflexão sobre o modo como a sociedade encara a deficiência, oferecendo uma nova perspectiva que valoriza a dignidade, a autonomia e a identidade do indivíduo. A obra é um convite à reflexão sobre os estigmas da deficiência e uma celebração da capacidade humana de se reconstruir e se reconfigurar, mesmo nas adversidades. Desse modo, desestigmatiza a visão social que enxerga o corpo deficiente como inválido e evidencia que a deficiência não é algo a ser superado. Por: Gabriela Lasta Referência CLIMAGO, Júlia Campos. Direitos humanos, invisibilidade e educação especial. SER Social, Brasília, v. 12, n. 27, p. 214-232, jul./dez. 2010 LUFT, LYA. O tigre na sombra. Rio de Janeiro: Record, 2012.
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