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Poliana

Sobre Poliana, de Eleanor H. Porter

Poliana

Ficha técnica

Título
Poliana
Autor
Eleanor H. Porter
Ano
1908
Deficiência representada
  • Deficiência física

Resenha

"Bem, o jogo se resume em encontrar alegria, seja lá no que for — concluiu Poliana, séria."(Poliana).

Trecho em destaque

Eleanor H. Porter (1868-1920) nasceu nos Estados Unidos, em Nova Hampshire. A escritora tinha o sonho de tornar-se cantora, mas deixou o canto pela literatura e, em 1901, começou a publicar contos em revistas e jornais. Em 1913, Eleanor publicou o livro Poliana, que foi um sucesso imediato e ficou entre os títulos mais vendidos de sua época. Logo depois, ela lançou a continuação, Poliana Moça. Os livros da autora já foram traduzidos em diversos idiomas e adaptados para TV, cinema e teatro. A obra recebeu tradução para o português na edição consultada, publicada em 2011. A história acompanha Poliana Whittier, uma menina de 11 anos, otimista e tagarela, que fica órfã após a morte de seu pai, um pastor pobre. Sem outros parentes, ela é enviada para a pequena cidade de Beldingsville para viver com sua tia materna, Polly Harrington. Tia Polly é uma mulher rica, severa e fria, que aceita abrigar a sobrinha não por amor, mas por um estrito senso de dever. Ela coloca Poliana em um quartinho quente e sem graça no sótão, esperando que a menina seja silenciosa e não atrapalhe a rotina impecável da mansão. Nesse contexto, Poliana apresenta o “Jogo do Contente”, criado por seu pai anos antes. Quando era menor, ela queria muito uma boneca, mas a caixa de doações da igreja enviou por engano um par de muletas. Para consolar a filha, o pai sugeriu que encontrassem um motivo para ficar contentes com as muletas. A partir dessa lógica, Poliana passa a procurar motivos para encontrar algum aspecto positivo mesmo em situações difíceis, influenciando gradualmente diferentes moradores da cidade. A inabalável positividade de Poliana é submetida ao teste definitivo quando ela é atropelada por um automóvel. O acidente a deixa sem os movimentos das pernas. Ao descobrir que talvez nunca mais volte a andar, a menina perde a esperança e, pela primeira vez, não consegue encontrar motivos para jogar o Jogo do Contente. A notícia abala a cidade e todos aqueles que foram ajudados por Poliana, como o Sr. Pendleton, a Sra. Snow e os empregados da casa, começam a visitar a mansão da Tia Polly. Eles pedem para contar à menina como ela os ensinou a lidar de outra maneira com suas próprias dificuldades e como o jogo mudou suas vidas. Ouvir que ela teve um impacto significativo na vida de tantas pessoas dá a Poliana ânimo para retomar o Jogo do Contente. Ela descobre que pode ficar contente por ter tido as pernas um dia. Nesse momento, a narrativa relaciona a recuperação emocional da personagem à capacidade de atribuir um sentido positivo à própria experiência da deficiência. A tragédia também serve para modificar as últimas barreiras do orgulho da Tia Polly, permitindo que ela e o Dr. Chilton se reconciliem e se casem. No último capítulo, Poliana é enviada para um hospital especializado e, na última carta que escreve para a tia, revela que está dando seus primeiros passos novamente. A recuperação da capacidade de andar encerra o arco da deficiência de Poliana e retoma a expectativa de retorno à condição corporal anterior ao acidente. A história de Poliana continua no segundo livro, Poliana Moça. Durante a leitura, analisar a obra Poliana (1913) pelas lentes dos estudos da deficiência exige situar a obra em seu tempo. A narrativa apresenta concepções sobre deficiência que podem ser relacionadas aos modelos caritativo e médico, formulados posteriormente como categorias de análise pelos estudos da deficiência. Ao observarmos a Sra. Snow e a própria Poliana após o acidente, é possível identificar diferentes formas de representação da deficiência. A Sra. Snow é apresentada como uma mulher que permanece restrita ao leito, doente, amargurada e exigente. A relação da cidade com ela evidencia uma representação marcada pela caridade e pela dependência: ela não é apresentada prioritariamente como sujeito de direitos e participação social, mas como alguém que recebe cuidados e atenção dos outros. A representação da personagem permite, portanto, aproximar sua trajetória do modelo caritativo, no qual a pessoa com deficiência ou adoecimento é colocada em uma posição de dependência e de recebimento de assistência (Böck, Beche e Silva, 2024). Já quando Poliana é atropelada e perde o movimento das pernas, a narrativa passa a enfatizar a dimensão corporal da deficiência e a possibilidade de recuperação por meio de intervenção médica. Essa construção pode ser relacionada ao modelo médico da deficiência, no qual a alteração corporal ocupa o centro da narrativa e a recuperação da função corporal aparece como possibilidade de retorno à condição anterior (Diniz, 2007). A própria estrutura do desfecho reforça essa perspectiva: Poliana é encaminhada para um hospital especializado e, posteriormente, volta a dar os primeiros passos. Assim, a recuperação física funciona como elemento importante para a resolução narrativa de seu conflito. Ao mesmo tempo, a obra apresenta uma tensão interessante entre essas perspectivas pois, embora a deficiência de Poliana seja inicialmente associada à perda, ao sofrimento e à necessidade de tratamento, a personagem continua ocupando um lugar central nas relações sociais da comunidade. Seus amigos e conhecidos continuam procurando-a, demonstrando que seu valor para aquelas pessoas não desaparece com a mudança em sua condição física. Entretanto, essa valorização está fortemente ligada ao impacto que Poliana produz sobre a vida dos outros, o que também merece atenção em uma leitura anticapacitista: a personagem é valorizada não apenas por existir, mas pelo efeito positivo que exerce sobre aqueles que a cercam. Outro aspecto importante está no próprio “Jogo do Contente”. Se, por um lado, o jogo permite que Poliana encontre novos significados diante das dificuldades, por outro, sua aplicação à deficiência pode produzir uma leitura problemática quando o sofrimento e as barreiras enfrentadas pela pessoa são deslocados para uma obrigação individual de manter-se positiva. A narrativa, portanto, pode ser analisada criticamente quando transforma a mudança de perspectiva pessoal em principal resposta às situações de vulnerabilidade. O livro propõe uma leitura leve, com muitos acontecimentos, e apresenta momentos de humor associados principalmente à personalidade e às situações vividas por sua protagonista. A obra também constrói relações marcadas por cuidado, transformação e mudança de perspectiva, mas carrega marcas das concepções de deficiência presentes no contexto histórico em que foi escrita. A deficiência aparece, em diferentes momentos, associada à dependência, à necessidade de cuidado, ao sofrimento e à recuperação corporal. Nesse sentido, Poliana constitui um material relevante para os estudos da deficiência justamente porque permite observar como determinadas representações literárias relacionam deficiência, caridade, tratamento médico e normalidade corporal. A continuidade da história em Poliana Moça também possibilita acompanhar como a personagem é construída após os acontecimentos do primeiro romance. Por: Nayelle Santos Santana Referência BÖCK, G. L. K.; BECHE, R. C. E.; SILVA, S. C. Os sentidos atribuídos à deficiência por docentes da educação básica. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 49, e141802, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1590/2175-6236141802vs01. Acesso em: 10 jan. 2025. DINIZ, Debora. O que é deficiência. São Paulo: Brasiliense, 2007. PORTER, Eleanor Hodgman. Poliana. Ed. especial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011. (Saraiva de Bolso).

Tags

  • romance
  • autora feminina
  • 1913
  • Estados Unidos
  • pessoa com deficiência física.

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