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Surpreendente

Sobre Surpreendente, de Maurício Gomyde

Surpreendente

Ficha técnica

Título
Surpreendente
Autor
Maurício Gomyde
Ano
2014
Deficiência representada
  • Deficiência visual (cegueira e baixa visão)

Resenha

“Ninguém reconhecera que ele já saíra em desvantagem. Nem sequer um desgraçado colocara na balança o fato inescapável de que, para ele, tudo era dez vezes mais difícil.” (Surpreendente)

Trecho em destaque

Maurício Gomyde nasceu em São Paulo e vive em Brasília desde os três anos de idade. É escritor, compositor e baterista, e Surpreendente é seu sexto romance. A história apresenta Pedro, um jovem apaixonado por cinema que tem o sonho de se tornar um grande cineasta. Desde cedo, Pedro enfrenta a experiência da deficiência visual, mas procura seguir sua vida e realizar seus sonhos. A obra apresenta uma história que envolve amizade, amor, família, cinema e a experiência de viver com uma deficiência visual, mostrando diferentes momentos vividos pelo personagem. O livro conta a história de Pedro, que aos 25 anos já havia concluído o curso superior de audiovisual e continuava buscando realizar seu maior sonho, que era trabalhar com cinema e ganhar o prêmio Cacau de Ouro. Pedro é uma pessoa muito ligada aos amigos Cristal, Mayla e Fit, que passam a ter uma importância muito grande em sua vida. Durante a história, ele descobre que sua visão está piorando e começa a ter medo do futuro. Além da preocupação com a perda progressiva da visão, ele também sofre com a descoberta de que foi adotado e com as dificuldades em sua relação com os pais. Todos esses acontecimentos fazem com que ele passe por momentos de tristeza, medo e insegurança. A deficiência visual de Pedro é um dos principais pontos da história. Em vários momentos, ele acredita que sua condição fará com que se torne dependente das outras pessoas. Ele chega a pensar que Cristal não deveria ter que conviver com alguém que precisaria de ajuda para realizar as tarefas mais básicas. Esse pensamento permite observar como o estigma associado à deficiência também pode ser incorporado pela própria pessoa, fazendo com que Pedro antecipe a dependência e passe a questionar seu próprio valor nas relações afetivas. Porém, durante a história, percebe-se que Pedro continua sendo capaz de tomar decisões, trabalhar e realizar aquilo de que gosta. Mesmo com a perda da visão, ele continua ligado ao cinema e, em determinado momento, assume novamente o papel de produtor e diretor. Seus amigos também demonstram que acreditam nele e procuram ajudá-lo sem abandonar sua amizade. Essa relação fica muito evidente quando os quatro seguem juntos e Pedro volta a pensar em produzir um novo filme. Um ponto importante da obra é a forma como o preconceito contra a pessoa com deficiência aparece. Pedro é chamado de “aquele ceguinho coitado”, expressão que mostra como algumas pessoas o reduzem à deficiência e a uma condição de suposta incapacidade, em vez de reconhecê-lo em sua individualidade. Além disso, ele próprio passa a se considerar um “coitado” e acredita que não será mais capaz de realizar aquilo que fazia antes. Dessa maneira, o livro mostra que o preconceito não está somente nas atitudes das outras pessoas, mas também pode ser internalizado e interferir na maneira como a própria pessoa compreende suas possibilidades e relações. Ao mesmo tempo, a amizade de Cristal, Mayla e Fit mostra a existência de uma rede de apoio que não reduz Pedro à condição de alguém que precisa ser protegido. Os amigos entregam uma bengala para Pedro e dizem que ela seria para que ele pudesse se guiar e soubesse que poderia chamá-los sempre que precisasse. Nesse episódio, a bengala aparece como um recurso de autonomia e mobilidade, e não como símbolo de incapacidade. No final, Pedro consegue voltar a pensar no cinema e, quando Fit fala sobre a viagem para a Itália, ele responde que já está na hora de preparar o roteiro do próximo filme. A trajetória de Pedro também permite discutir a diferença entre deficiência e incapacidade. A progressão da perda visual produz mudanças concretas em sua vida, mas a narrativa não reduz essas mudanças à impossibilidade de trabalhar, amar, criar ou fazer planos. Ao contrário, Pedro permanece sujeito de suas escolhas e projetos. Nesse sentido, o conflito não está apenas na alteração de sua condição visual, mas também nas representações sociais que associam a cegueira à dependência e à incapacidade. Outro aspecto relevante é a relação entre deficiência e projeto de vida. O cinema não desaparece da trajetória de Pedro quando sua visão piora; ele precisa reelaborar sua relação com essa atividade e com as possibilidades de atuação profissional. A permanência desse desejo contribui para afastar a personagem de uma representação na qual a deficiência encerra seus projetos ou transforma sua vida exclusivamente em uma narrativa de sofrimento. A obra, portanto, apresenta uma representação da deficiência visual que pode ser analisada a partir do capacitismo, do estigma e da autonomia. A expressão “aquele ceguinho coitado” sintetiza uma forma de olhar que reduz a pessoa à deficiência, enquanto a trajetória de Pedro tensiona essa representação ao mantê-lo como sujeito de desejos, vínculos, decisões e projetos. A presença dos amigos também permite discutir o papel da rede de apoio sem transformar o personagem em objeto de cuidado permanente. Assim, mais do que uma narrativa sobre “superar” a deficiência visual, Surpreendente pode ser lido como uma história em que Pedro precisa enfrentar tanto as mudanças provocadas pela perda da visão quanto as representações capacitistas que associam a cegueira à incapacidade. Sua trajetória evidencia que autonomia não significa ausência de apoio, mas possibilidade de participar das próprias decisões e continuar construindo projetos, relações e formas de atuação no mundo. Por: Jessica Almeida Oliveira Vasconcelos GOMYDE, Maurício. Surpreendente. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015.

Tags

  • romance
  • autoria masculina
  • anos 2010
  • Rio de Janeiro
  • pessoa com deficiência visual.

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